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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Desvanecida

            Sentia-se leve, não por ter alma pura a ponto de sentir-se bem, mas por sentir-se poeira, por sentir que qualquer vento poderia desvanecê-la. De fato era esperado que uma ventania pudesse levá-la à perdição. Seu desejo era o de ser poeira perdida na ventania. Muitos têm grandes vontades, ela possuía apenas uma, ansiava apenas pela liberdade de poder sumir com qualquer rajada de vento.
            O mundo se torna inabitável quando se tem um universo inteiro dentro de si mesmo, quando tudo o que você quer está apenas muito além da vontade alheia, quando o que você quer é simplesmente tão simples a ponto de não fazer sentido para quem observa. A habilidade de voar é um dom imprescindível, o voo é a personificação da liberdade, poucos são abençoados com asas. No entanto, não são necessárias asas para que se voe. Anjos, aves... Poeira.
            Poeira. Mísero grão de areia. Quase invisível aos olhos humanos. Tudo o que queria ser. Para poder voar, para poder sentir livremente e sumir. E surgir. E enfim, ser por excelência o que sempre quis. Ouviu-se uma farfalhada, permitiu-se voar, voar com as aves... E com os anjos. Sentia-se leve, não por ter alma pura a ponto de sentir-se bem, mas por sentir-se deusa. Por sentir-se deusa pagã, sim, pois finalmente sentia como homem, ou melhor, deleitava-se como mulher. Como poeira. Apenas um grão de areia viajando sem destino. Poeira perdida na ventania. Livre. Desvanecida.

Um comentário:

PaulinhoIron disse...

Marina, a cada vez que passo por aqui, você tem me surpreendido mais!
Vendo pelo ponto de vista que o texto transmitiu, ser poeira talvez não seja tão ruim quanto pareça. Pelo contrário, passou uma imagem de que essa poeira, numa possível hierarquia, esteja no topo, sendo ela aquela que tudo pode, tudo consegue, apenas pelo fato de ser livre para voar por onde bem entender. O problema de ser poeira e não ter asas, é depender de um estímulo para que possa voar.
E é curioso como é, desejos simples passam despercebidos. Talvez as pessoas grandes realmente sejam como o pequeno príncipe nos conta, elas não vêem valor no que é simples, no que é rico de pureza, elas vêem valor no que é rico de valor tangível. Triste, mas verdade.
"O mundo se torna inabitável quando se tem um universo inteiro dentro de si mesmo..."
Essa frase me causou um duplo sentido durante a leitura, Marina...uma primeira conclusão seria aquela que a frase diz por si só e a outra, bom...a outra se encaixa em mim e naquele velho papo de "estar sozinho na multidão". Bom...fato é que fiquei impressionado com esse texto.
Excelente mesmo!

Beijos, Marina! Tenha um excelente feriado!

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